Como sou eclética, resolvi ler Padre Fábio de Melo.
Quem nunca sofreu uma perda? Abençoado aquele que não sofreu, mas infelizmente um dia vai passar por isso. E é muito dolorosa a dor. Por mais que saibamos que a separação é temporária, dói muito perder alguém.
Este livro fala sobre as diversas orfandades. Diversas, porque não ficamos órfãos somente de pai e mãe. Existe a orfandade de irmãos, amigos, avós, marido, esposa, filhos. Quando se vão, nos privam de sua companhia neste plano terrestre e nos deixam órfãos de seu carinho. Cada capítulo conta uma estória sobre um tipo de orfandade, sobre ressentimentos, sobre a falta que alguém faz.
Pior não é perder para a morte, é perder para a vida! Imagino a dor da mãe de um filho desaparecido. Imagino a dor de quem não conhece o pai. É triste um alguém nunca mais ter notícias de um outro alguém...
" O tempo passou. A clausura do amor me envelheceu. Agonizo dia e noite com medo de perder o homem que preencheu todas as minhas ausências. Essa é minha contradição. O amor que tenho por ele me empobrece. Sofro dia e noite de insegurança. Ao tomar o leme de minha existência, ao roubar-me dos braços divinos, Fausto me aleijou a alma. Reduziu-me a ser humana, carne que morre sem o auxílio da esperança eterna. Da consagração espiritual, passei à consagração carnal, conheci o desconforto de necessitar de braços e pernas me enlaçando na solidão da noite, dedos e olhos me fazendo esquecer a beleza das realidades etéreas."
"Partiu só. Cheio de medos, mas acompanhado por esperanças. A juventude nos olhos certamente lhe garantiria pousada em noites mais frias. Há sempre um lugar debaixo do céu para quem ainda não fez trinta anos. Depois tudo muda. Por isso quis partir antes da mudança. Vinte e nove já seria número de risco. Mais prudente anteceder-se dois anos à data. Trinta anos é informação que parece desestimular qualquer forma de transgressão. Amargara demais a sina de ser moço feito de disciplina e boas reputações."
"Eu quase não me perdi na vida. Meus destinos sempre foram muito próximos, calculados em medidas estreitas. Matemática aplicada; coisa de quem não conhece o prazer que há no esquecimento das regras. Eu gostaria de ter conhecido o gosto de ficar perdida, mas não o conheci. Sempre achada, posta o lugar esperando eu amarguei a vida inteira cuidando do mundo como se todo ele tivesse nascido de minhas entranhas. Eu sempre me ocupei de filhos que não são meus. Meu pai me obrigou a seguir esse caminho. Nem pude consultar o mapa. Ele fez por mim. Deixou-me um roteiro de destinos poucos, e a eles me acostumei."
"Quem não tem aonde ir precisa descobrir a graça de ficar."


2 comentários:
Poxa que bom que voce e ecletica.
E nos brinda sempre com boas dicas de leitura.
Continue postanto, pois e sempre um prazer ter o privilegio de poder le-los e comenta-los.
Saudades,
Walderli Dias
Obrigada! Ler é um grande prazer para mim!
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