Primeiro, não queremos perder.
Segundo, perder dói mesmo.
Não há como não sofrer. É tolice dizer "não sofra, não chore". A dor é importante, também é o luto - desde que isso não nos paralise demasiado por demasiado tempo para o que ainda existe em torno de nós. (E quem sabe qual é a dose de tempo?)
Terceiro, precisamos de recursos internos para enfrentar tragédia e dor.
O apoio dos outros, o abraço, o ouvido e o colo, até a comida na boca são relativos e passageiros. A força decisiva terá de vir de nós: de onde foi depositada a nossa bagagem. Lidar com a perda vai depender do que encontremos ali. (Concordo em gênero e número. Vamos sofrer minha gente, mas sem a síndrome do coitadinho. Tenho repugnância de coitadinho!)
A tragédia faz emergir forças insuspeitadas em algumas pessoas. Por mais devorador que seja, o mesmo sofrimento que derruba faz voltar a crescer.
Para outros, tudo é destruição. No seu vazio interior sopra o vento da revolta e da amargura. A perda os atinge como uma injustiça pessoal e uma traição da vida.
Nesse debate sobre perdas observei como lidamos mal com a dor uns dos outros. Entre nós de momento estar alegrinho e parecer feliz é quase um dever, uma questão de higiene, como tomar banho e estar perfumado.
Mas às vezes a gente tem de se permitir sofrer - ou permitir que o outro sofra. (Para os que vivem dizendo que eu preciso me permitir... estou me permitindo!)
Todos nós, amigos, família, terapeutas, médicos, sentimos duramente nossa própria limitação quando alguém sofre e não podemos ajudar. Em certos momentos, é melhor não tentar interferir, apenas oferecer nossa presença e atender se formos chamados. Que o outro saiba que estamos ali.
Mas não (se) permitir o prazo normal de dor é irreal.
Quando é hora de sofrer não teremos de pedir licença para sentir - e esgotar - a dor. (Eu não gosto de nada pela metade. Sempre esgoto as possibilidades.)
Já disse aqui, que me tornei fã de Lya Luft depois que li esse livro - Perdas & Ganhos.
Pois é, é isso.

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